A arte e a ciência de distinguir os movimentos internos da alma — o que vem de Deus, o que vem do inimigo, o que vem de nós mesmos — para tomar decisões conforme a vontade divina.
"Não acrediteis em todo espírito, mas examinai os espíritos para ver se são de Deus." — 1 João 4,1
O discernimento espiritual (diakrisis pneumaton em grego) é o dom e a arte de reconhecer, nos movimentos interiores da alma (pensamentos, sentimentos, desejos, impulsos), quais vêm de Deus, quais vêm do "espírito do mal" e quais emergem da própria natureza humana.
É necessário porque:
São Paulo lista "discernimento dos espíritos" como um dos carismas do Espírito (1Cor 12,10). A tradição cristã desenvolveu métodos práticos para esse discernimento, sendo Santo Inácio de Loyola o sistematizador mais influente.
Segundo Santo Inácio (Exercícios Espirituais [316]), há consolação espiritual quando:
Atenção: "Consolação" não significa sentir-se bem ou feliz superficialmente. É possível ter consolação espiritual em meio a sofrimento físico — como os mártires que cantavam no caminho para o martírio.
Segundo Santo Inácio ([317]), há desolação espiritual quando:
Atenção: A desolação não significa que Deus nos abandonou. Às vezes é prova de fidelidade, purificação, ou sinal de que precisamos rever algo em nossa vida espiritual.
Santo Inácio ensina ([318-322]):
As regras da Primeira Semana [314-327] aplicam-se a pessoas que "avançam de pecado mortal em pecado mortal" ou que vivem vida superficialmente religiosa:
R1: O inimigo apresenta prazeres, delícias e fantasias sensuais para que a pessoa permaneça no pecado. O Espírito Bom, ao contrário, produz remorso e tristeza, enviando a consciência para afastá-la do vício.
R2: Para quem se purifica e avança, é o contrário: o Espírito Bom dá consolação, o inimigo dá aborrecimento, tristeza e dificuldades para impedir o progresso.
R3-4: Definição de consolação e desolação (ver acima).
R5: Na desolação, nunca mudar as decisões boas que tomamos. O inimigo "tem o vento a favor" na desolação.
R6-R7: Na consolação, preparar-se como se a desolação fosse chegar. Na desolação, pensar que a consolação voltará — e que a graça é suficiente para resistir ao inimigo.
R8: Paciência e perseverança na desolação são caminhos de virtude e maturidade espiritual.
R9-11: A desolação leva a três coisas: ao humilharmo-nos bem; a reconhecer que sem Deus não podemos fazer o bem; a provar que a consolação e os dons espirituais são dádivas divinas, não nossas.
R12: O inimigo procede como conquistador: ataca onde vê fraqueza. Se a alma resiste firmemente, ele recua — como o cobarde que foge diante do corajoso.
R13: O inimigo age como mulher que briga: se a pessoa cede à sua pressão, ele insiste cada vez mais. Se a pessoa resiste, recua.
R14: O inimigo age como o sedutor: sugere segredo. Quanto mais guardamos para nós as tentações, mais elas crescem. Revelar ao confessor ou diretor espiritual é arma poderosa.
As regras da Segunda Semana [328-336] aplicam-se a pessoas já comprometidas com a vida de graça, onde o discernimento é mais sutil:
R1: Deus e os anjos produzem consolação genuína, alegria, paz, esperança, fé. O inimigo produz o contrário.
R2: Só Deus pode dar consolação espiritual "sem causa precedente" — um gozo e alegria sobrenatural sem nenhum motivo humano. Isso é sinal seguro de que vem de Deus.
R3-4: Quando há causa precedente (uma boa leitura, um sacramento recebido), tanto o anjo bom quanto o mau podem produzir consolação. O inimigo usa isso para depois levar ao orgulho, à vaidade ou a decisões precipitadas.
R5: Atentar ao início, meio e fim dos movimentos. Se o início é bom, o meio bom, mas o fim leva ao orgulho ou ao abandono de coisas boas — o inimigo se infiltrou no processo.
R6-7: Após uma consolação autêntica, o inimigo pode sugerir planos e propostas que parecem continuação da consolação, mas não são. É preciso examinar com cuidado o período que se segue à consolação.
O ponto mais sutil das regras ignacianas: o inimigo pode imitar o Espírito Santo, sugerindo bons pensamentos, santos desejos, impulsos aparentemente nobres — que, se seguidos, levam ao mal.
Exemplos práticos:
Critérios para verificar:
Para grandes decisões (vocação, estado de vida, apostolado), Santo Inácio apresenta três "tempos" ou modos de deliberar:
1º Tempo: A moção imediata — Deus move a alma com tanta clareza e certeza que não restam dúvidas. Como São Paulo ou São Mateus, que foram chamados sem hesitação interna. Raro, mas o mais certo.
2º Tempo: Discernimento por consolações e desolações — a decisão é feita analisando quais movimentos internos (consolações, desolações, afetos) surgem ao considerar cada opção. Requer experiência e direção espiritual.
3º Tempo: Razão tranquila — Em tempo de tranquilidade, usar a razão para ponderar prós e contras:
O discernimento espiritual não é feito em solidão. A direção espiritual — acompanhamento por sacerdote, religioso ou leigo qualificado — é recomendada pela Igreja e pelos Padres.
O que o diretor espiritual faz:
Santos que tiveram diretores espirituais: Santa Teresa de Ávila (vários, incluindo São Pedro de Alcântara e São João da Cruz), Santa Faustina Kowalska (Pe. Michał Sopoćko), São Francisco de Sales (São Carlos Borromeo como influência). A partir de Santa Teresa, o diretor espiritual se torna componente essencial da vida mística.