Testemunhas que derramaram sangue pela fé em Cristo — do século I ao século XX
"Mártir" vem do grego martys — testemunha. O mártir é o cristão que aceita livremente a morte em ódio à fé (in odium fidei). É o mais perfeito testemunho de amor a Deus — seguir a Cristo até o sacrifício da própria vida.
"Não há amor maior do que dar a vida pelos seus amigos." (Jo 15,13). Os mártires tomaram isso ao pé da letra.
A Igreja venera os mártires desde os primeiros séculos. O sangue dos mártires (sanguis martyrum semen christianorum) foi, segundo Tertuliano, a semente do crescimento do Cristianismo.
Estêvão era diácono e homem "cheio de fé e do Espírito Santo" (At 6,5). Quando acusado pelo Sinédrio, pronunciou um discurso magistral sobre a história de Israel e acusou as autoridades de ter assassinado o Messias. Furioso, o povo o arrastou para fora da cidade e o apedrejou. Morrendo, viu o Céu aberto e Jesus de pé à direita do Pai, e exclamou: "Senhor Jesus, recebe o meu espírito! Senhor, não lhes imponhas este pecado como culpa!" (At 7,59-60). Entre os que aprovaram a lapidação estava um jovem chamado Saulo — que mais tarde se tornaria Paulo.
Bispo de Antioquia e discípulo do apóstolo João, Inácio foi condenado sob o imperador Trajano e levado a Roma para ser devorado por leões no anfiteatro. Durante a longa viagem, escreveu sete cartas às comunidades cristãs — documentos preciosos da teologia primitiva. Nelas, Inácio expressou um desejo ardente de martírio: "Sou trigo de Deus e serei moído pelos dentes das feras para tornar-me pão puro de Cristo." Pediu às comunidades que não tentassem salvá-lo. Suas cartas contêm a primeira menção conhecida do termo "Igreja Católica" (Smirn. 8,2).
Bispo de Esmirna, discípulo do apóstolo João, com cerca de 86 anos. Quando o procônsul o mandou insultar a Cristo para salvar-se, Policarpo respondeeu serenamente: "Há oitenta e seis anos que o sirvo e nunca me fez nada de mal. Como posso blasfemar do meu Rei que me salvou?" O fogo milagrosamente o envolvia sem consumi-lo; finalmente foi atravessado por uma espada. Seu martírio é o mais antigo relato de martírio cristão pós-apostólico que conservamos.
Diácono do Papa Sisto II, Lourenço foi preso durante a perseguição do imperador Valeriano. Quando o prefeito exigiu que entregasse os tesouros da Igreja, ele se apresentou com os pobres: "Estes são os tesouros da Igreja." Foi condenado a ser grelhado vivo. Conta a tradição que, após longa tortura sobre a grelha, ele disse ao carrasco com humor apostólico: "Pode virar-me — já estou assado de um lado!" Sua coragem e alegria no sofrimento chocaram os pagãos e converteram muitos. É patrono dos pobres, dos cozinheiros e dos bibliotecários.
Vibia Perpétua era uma jovem nobre de 22 anos, recém-casada, com um filho de peito. Felicidade era sua escrava, grávida. Ambas foram presas durante a perseguição de Sétimo Severo em Cartago por serem catecúmenas. Perpétua deixou um diário — o mais antigo texto cristão escrito por uma mulher que chegou hasta nós. Descreveu as visões que teve na prisão e a despedida de seu pai pagão, que soluçava ao vê-la. Felicidade deu à luz na prisão dois dias antes do martírio — para não morrer separada de Perpétua. No anfiteatro, foram lançadas a uma vaca furiosa e depois degoladas. Perpétua guiou a lâmina do carrasco hesitante até seu próprio pescoço.
Lord Chanceler da Inglaterra sob Henrique VIII, jurista, humanista, amigo de Erasmo, pai de família exemplar. Ao se recusar a jurar fidelidade ao Ato de Supremacia (que tornava o rei chefe da Igreja na Inglaterra), foi preso na Torre de Londres por 15 meses. Manteve um silêncio admirável, mas quando condenado, declarou abertamente que o Parlamento não tinha poder para separar a Inglaterra da unidade da Igreja universal. Foi executado na Tower Hill. Suas últimas palavras: "Morro como bom servo do Rei, mas antes de tudo servo de Deus." Canonizado em 1935 por Pio XI. Padroeiro dos políticos e dos advogados.
Sob o shogunato de Toyotomi Hideyoshi, 26 cristãos — 6 franciscanos europeus, 3 jesuítas e 17 leigos japoneses (incluindo três meninos de 12 a 19 anos) — foram presos em Kyoto, tiveram parte da orelha cortada como humilhação, e foram obrigados a percorrer cerca de 600 km até Nagasaki no inverno. Crucificados em cruzes de 2 metros, foram lanceados. Paulo Miki, noviço jesuíta, pregou do alto da cruz para a multidão. Os fiéis colheram sangue de suas vestes como relíquias. O martírio desencadeou mais perseguições, mas o Japão escondeu durante 250 anos uma comunidade cristã clandestina cuja fé subsistiu.
O rei Mwanga II de Uganda, irritado com a recusa dos jovens pagens cristãos à sua sodomia e com sua conversão, ordenou a morte de cerca de 45 jovens cristãos (mais numerosos anglicanos, que são beatificados como mártires também). Carlos Lwanga protegia os mais jovens e era catequista. Com coragem heroica, todos morreram — queimados vivos em Namugongo no Pentecostes de 1886 ou decapitados. Muitos tinham 13 a 30 anos. O massacre produziu efeito contrário: a fé se propagou ainda mais em Uganda. Canonizados por Paulo VI em 1964.
Maria tinha apenas 11 anos quando Alessandro Serenelli, 19, tentou violentá-la e, diante de sua recusa vigorosa ("É pecado, Deus não quer!"), a esfaqueou 14 vezes. Maria sobreviveu algumas horas e, antes de morrer, perdoou Alessandro: "Quero que também ele venha para o Céu." Alessandro foi condenado a 30 anos de prisão. Após uma visão de Maria numa noite, converteu-se profundamente. Ao sair da prisão, foi pedir perdão à mãe de Maria. Em 1950, quando Maria foi canonizada, Alessandro estava na praça de São Pedro e chorou. É patrona das crianças, das vítimas de violência e da castidade.
A perseguição religiosa na Espanha republicana (sobretudo 1936-1939) produziu o maior número de mártires desde as perseguições romanas: mais de 7.000 sacerdotes, religiosos e leigos mortos exclusivamente por sua fé. A Igreja beatificou grupos sucessivos — ao todo mais de 11.000 beatos. Entre eles, bispos, frades, freiras que se recusaram a abandonar seus conventos, catequistas, famílias inteiras. Muitos morreram pronunciando o nome de Jesus, rezando o Rosário ou oferecendo perdão. A historiografia moderna documenta a perseguição como genocídio religioso premeditado.